TORRE DA MÁ HORA

Não, meu menino! não é aqui!


.


Tu vens ao jogo da vida


com essa avidez perfeita


como um bambino a mamar:


- que denúncia os teus olhos de poeta!


.


Não, meu menino! não é aqui!


.


Esta lareira já nem lembra o fogo.


Berços? - Só o vai-vem das artérias


contando os passos da morte


como o caruncho que rói.


.


Esta Bela Adormecida


é alma sem salvação


e os principes partiram


quando o luar secou.


.


Beijos? - Só esta fome sem remédio


como o pecado da gula.


(O amor não é ser amado:


é amar!)


.


Não, meu menino! não é aqui!


.


Aqui só o acre das lágrimas


na face arada de rugas:


as lágrimas ferozes e gratuitas


sem um perdão ou uma esperança.


.


In - SETE LUAS - 1ª edição


Edição de Autor, impressa em Abril de 1943


pela Tipografia Atlântida, Coimbra

Comentários

  1. Amiga M. João
    Por cá novamente, fico a ler e reler os poemas de seu avô que são simplesmente belos.
    Com a sua permissão eu encarrego-me de editar os poemas de seu avô.
    1 abraço!!

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    1. Fico-lhe muito grata, António. Vai editá-los no seu blog ou já tem alguma das obras dele?

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