CARTA DE LONGE
Pöertchasch-am-See
Austria - Maio, 1923
Minha adorada mulher:
Aqui vão em duas linhas,
As saudades que adivinhas.
Tantas que nem sei dizer!...
Ando por terras estranhas,
longe do meu Portugal.
Atravessei rio e val`,
terra chã e altas montanhas
Mas onde quer que passei
achei-me sempre sòzinho:
lembrei-me sempre do ninho,
da rôla que lá deixei.
O sol que me alumia
é triste, nem dá calor:
não é como o teu amor
que é sol de noite e de dia.
O céu é mais desmaiado
e assim a modos de estranho.
Inda não vi um rebanho
nem um pastor de cajado.
Moro à beira dum lago
de águas mansas como escravas...
Antes quero as ondas bravas
do mar que nos olhos trago!
No pálio que se descerra,
de tanta côr! às tardinhas,
eu procuro as andorinhas
que vêem da minha terra
E as andorinhas amigas,
nas curvas que vão traçando,
parece que estão marcando
voltas das nossas cantigas...
...Adeus minha companheira
das minhas dores e alegrias!
- Agora e todos os dias
seja Deus à tua beira!
E, lá do alto do céu,
te dê graça ao teu desejo!
Mando-te a alma num beijo
do teu António, só teu.
*
António de Sousa
In "Caminhos", Tipografia da Seara Nova, Lisboa, 1933
Vinheta da Capa de Diogo de Macedo

belas quadras joão... eu ando em visita de rotina que faz sempre bem. bacio.
ResponderEliminarForam escritas para a minha avò, quando ele estava na Áustria. Já não me recordo se foi o António Menano ou o Edmundo Bettencourt quem as musicou e cantou. A minha mãe manteve o disco original até pouco antes de morrer. Lembro-me muito bem do disco, da "His Master`s Voice"... agora não faço a menor ideia do que lhe aconteceu... a minha irmã talvez tenha ficado com ele...
EliminarBaci!
Oi Maria
ResponderEliminarAo vir aqui neste teu espaço e também espaço de teu avô. Foi curioso...
Quando lia... cantava e só depois de ver a tua resposta ao comentário vi que realmente é uma música. Senti a musicalidade ao ler este poema, e olha que não entendo nada de música, mas pude sentí-la.
E confesso todos muito bonitos. Vale a pena reviver o que teu avô teve e não foi explorado e divulgado por teu país.
Também pelas fotos há de se notar que era um belo rapaz!
Ps. Desculpe a franqueza.
E parabéns por ter concretizado um sonho.
Abraço.
Obrigada, Velucia! Eu tamém funciono assim! Não sei nada de música, mas sinto-a! E essa eu sei-a de cor desde os meus primeiro anos de vida! É um fado de Coimbra lindo de morrer.. já andei ni Youtube à procura, mas parece que não há mesmo nada... tenho pena de não saber do disco original...
Eliminarabraço grande!