UM POETA QUE NASCEU NO DIA DE NATAL

 


 



A ILHA DE SAM NUNCA

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ESBOÇO IMPRESSIONISTA DO PERFIL DO POETA

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Os traços biográficos quando articulados por mero interesse informativo, como se impõe em obra não isenta da preocupação didática de dar a conhecer um poeta que se fez esquecer, enfermam inexoravelmente de secura. Mas desapreço seria pela cálida humanidade de um homem que em tudo a fazia esfuziar, transcrever-lhe a biografia num inexpressivo registo curricular; pelo que, da lavra da minha afectuosa relação com o poeta, retiro um breve punhado de memórias que aquecem, como lhe é devido, o seu ser e estar de nababo de sonhos com as mãos a abanar.

Descrevo-o tal como o conheci entre a Sá da Costa e a Bertrand no desafogo tertuleiro da indignação selada pela censura em que o pontificado dos Aquilinos e Sérgios embasbacavam os jovens. Eu, então muito moça e António de Sousa já entrado nos cinquenta era uma aparição abstrusa naquela tábua de valores falantes em que o magistério do político, do literário e do filosófico triangulava o nosso anseio por mudar as coisas. Logo no físico taurino bandarilhado por fantasias se lhe estampava a extravagância de um matulão basquetebolista desmazelado com uma alma famélica de estrelas. Vinha da Boa Hora, onde, ali para os fundos do Chiado, se reproduziam as comicidades e desesperos que Fialho de Almeida saboreou numa das suas pasquinadas. E aí, era vê-lo, como o surpreendi no temeroso Palácio da Justiça onde, no papel de testemunha me achei, menina entre bruxas de beca, com a toga a adejar entre rufiagem e mulherio de saracoteio público e guincharia de venda ambulante clandestina. Era esta a clientela do cambão compassivo desse causídico desastrado para angariar causas proveitosas.

O contrastante emanava dele com uma candura comovente. A tricana e o fado de Coimbra para o qual enluarou trovas garganteadas por António Menano e Edmundo de Bettencourt, tinham-se-lhe pegado ao peito.
Mas por entre os relâmpagos da boémia pastoreava almas evangelicamente, em devota função que lhe cumpria como Secretário Geral da Young Men`s Christian Association fundada por Evangélicos Americanos. Este misticismo que nada tinha de beatério, apimentado por apetites carnais que lhe vinham ao lume dos olhos, casavam-se com uma inocência poética que, orvalhando as sentenças dos papas das tertúlias, era rocio mais calhado à frescura dos meus anos e à atracção pelo insólito com que me espicaçava o duende dos versos.
António Sérgio que era severo por disciplinada introversão de veemências românticas, não tinha paciência para o brincalhotar erótico de António de Sousa que arregalava o olho quando quando a beleza com saias lhe passava ao pé. E algumas vezes tive de interceder junto do Mestre que, pela minha militância cooperativista me prezava, para que aceitasse aquele gosto de tricana e serenata que, nos adiantados anos do poeta, continuava a piscar o olho ao que de femenininamente belo e emocionante viesse. Saí-me mal da empresa, com infantil amargura do poeta que não compreendia aquelas lufadas de mau génio com que Sérgio lhe bufava o nome de velho sátiro. o falhanço dos meus bons ofícios em nada toldou a devoção que me ligava ao mestrado e à altura de António Sérgio. Mas, aqui o confesso pela primeira vez, tomando eu em meu íntimo o partido do poeta, tal opção apressou-me os passos para climas mentais poeticamente mais respiráveis aos pulmões da minha sensibilidade do que a ratio ideológica falha de humor que a poesia prega à razão.

Ao transmitir estas breves impressões que guardo do meu convívio com António de Sousa mais não pretendo do que credenciar a autenticidade da sua poesia com o comportamento do homem e do seu discurso poético.

Um insulado pela fantasia lunar irremediavelmente praticada num coexistir que a marginalizava. Só que António de Sousa não dava por isso na sua candura de menino perpétuo a pedir a lua. A brincar a Robinson Crusoé da Ilha Deserta onde é possível recomeçar o mundo com as mãos imaculadas. Assim me apareceu. Assim o li nos versos que escreveu, nas ondas que perfeitamente naufragou para adquirir a pureza de sonhar sem a grilheta dos êxitos que atam os triunfantes ao compromisso de serem esplêndidos.


   Natália Correia

In A ILHA DE SAM NUNCA

Atlantismo e Insularidade na Poesia de António de Sousa


 


 


Imagem - António de Sousa e Alice Brito de Sousa


 


 


 

Comentários

  1. Olá minha querida e doce amiga Maria João. Obrigado. Por teres posto á nossa discrição. Este texto da Grande, e cada x mais grande Natália correia. Eu fiquei muito feliz, por isso, te agradeço. E adicionei aos meus favoritos. Foi uma grande surpresa para mim, encontrar esta Discrição, em jeito de Biografia poética. Termino, Desejando-te um 2010, com melhores augúrios que o finado 2009. Um grande abraço e desejo-te tudo de bom. Eduardo.

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    1. Que bom que já estás de volta, meu amigo! Que o teu 2010 te traga uma recuperação completa e que, dentro do bom senso da prudência, possas voltar às tuas actividades habituais!
      Pensei muito em vós durante este Natal e passagem de ano, amigo. Sobretudo nos que estavam menos bem. Passei o Natal e o Ano Novo com uma cara capaz de assustar o próprio medo, mas o dente foi arrancado ontem, ao fim da tarde, e isto há-de melhorar com o tempo!
      Um enorme abraço e muito obrigada por teres vindo até este texto da Natália e por teres gostado dele!

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    2. Olá, minha querida amiga João. Fico feliz por saber que já te viste livre dessa dor de dentes, que é tão difícil de suportar, se é que há alguma que o não seja. Espero que já estejas restabelecida e em pleno. Obrigado por te lembrares de mim, mas eu também me lembrei de ti, e tu sabes isso. Quanto a mim, isto parece que vai, ou eu me vou esquecendo de como eu era. Obrigado pelo teu carinho e amizade, és muito querida. Um grande abraço deste amigo, Eduardo.

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    3. Vai pois, amigo! Ainda me dói um bocadinho a cara, mas já não está a desgraça que estava...
      Abraço grande, grande!

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