CARTA ABERTA


António de Sousa

 1950

*

 

CARTA ABERTA

*

 

Diante de ti, que tens fome

ou tremes de cansaço,

perdoa, irmão,

que eu tenha de sofrer

um drama que parece de palavras!

*

 

 Semeio versos,

tu moirejas nas cavas,

regando a terra com o suor do rosto

e requeimas a carne à boca das fornalhas

e gastas a paciência,

vivendo ao ritmo inumano das máquinas

(eu, é da alma que suo...)

*

 

 

 Não é vida este sonho a que me espelho?

Não me dou como tu?

Irmão, perdoa!

Não fui eu quem talhou o meu destino

e a sede de me ser também é inferno!

*

 

 Irmão, perdoa!

Não feches o teu punho a esta mão sem calos...

Outros, mas também tenho os meus trabalhos:

é com o cerne dos meus nervos

que acendo este luzeiro do meu canto

*

 

 

Se me não vês assim,

se te pareço, ao rumo dos teus passos,

o passo inútil duma lua inquieta

num céu fechado,

ou apenas um mocho (agoirento e romântico),

não me fuzile a tua voz de pragas!

*

 

 

 Não me chames Poeta

como quem cospe um exorcismo!

Sou teu longínquo irmão,

irmão!

Como tu deserdado

e à espera do mesmo:

sete palmos de terra e de silêncio...

*

 

 

António de Sousa  

In TERRA AO MAR

Editorial Inquérito, 1954

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