A ÚLTIMA HOMENAGEM
Faz hoje 27 anos, António de Sousa adormecia, pela última vez, no seu último leito, em Oeiras, na Praceta Gil Vicente em Nova Oeiras. Eram 16.30h.
A sua morte foi largamente noticiada pelos Media.
Aqui ficam as transcrições de algumas palavras póstumas.
"O principal responsável pelo esquecimento em que mergulhou António de Sousa e fez com que as últimas gerações o ignorassem por completo foi ele próprio, ao cortar com tudo e com todos, ao fechar-se em casa a sete chaves, tornando-se inacessível aos amigos, à família e até a si mesmo - verdadeiro "espectro de órbitas vazias, sem estrelas e sem raiva."
Vai para dez anos (ou mais) que abandonou o escritório da Rua da Misericórdia, desapareceu dos corredores da Boa Hora, atirandõ co a toga para um canto para apodrecer consigo num silêncio amarfanhado de miasmas. E nunca mais o vimos. Nem na esquina da Sá da Costa, nem à mesa da Brasileira, numa roda de tertúlios incorrigíveis. Suponho que também nunca mais abriu a Bíblia com que, nas assembleias evangélicas onde foi pastor, acertava as agulhas do céu e da terra, mas debatendo-se, instante a instante com "aquela pureza feita de pecado" que o levava a exclamar: "Almas e coisas que suam/ sua nudez condenada/ por que me escolhem a mim,/ para eu falar por elas/ para que as diga esta voz/só de palavras quebradas/ como lanças na derrota."
Perdera a mulher. A pouco e pouco os amigos ficavam no cemitério, na viajem sem regresso. Longe, muito longe, na outra margem da vida, "ardia o sol como um berro"
num delírio de luz e de cor, a voz harmoniosa e clara que retenho, na memória dos caminhos andados da sua lira trágica e vadia até que: "Roubaram-me a força/ destes rijos pulsos/ deixaram-me a cinza de uns sonhos avulsos(...) nem homens nem deuses/ me podem valer/ que eu vivo da morte/ mas não sei morrer."
Os pressentimentos dos poetas são, regra geral, confirmados pela evidência dos factos. Por isso eles são os primeiros a ssustar-se com a profética visão que os ilumina.
Homem feito de abismos e de pasmos, António de Sousa encarnava três pessoas distintas numa só verdadeira: era "tripeiro" até à medula, Coimbrão por boémia de espírito e açoriano por fatalidade hereditária. Filho do Prof. Dr. Sousa Júnior, catedrático da faculdade de Medecina do Porto e várias vezes Ministro na Primeira República, recebera de seu pai, não só os exemplos de fidelidade à democracia, como também uma costela de insularidade. O mar que banha os seus versos e inunda os títulos da sua bibliografia poética é muito mais do cais da alfândega de Angra do Herísmo do que de Leixões ou Matosinhos. "Onda! Quem te mediu a força bruta?/ Que são meus verdes versos no teu seio?"
Nem Coimbra nem o Chiado desnaturalizaram António de Sousa que permaneceu, nos actos e na fonética, fiel a esse Porto do começo do século, mas, no fundo, "antiquíssimo e idêntico" em que já não havia Camilo e Junqueiro mal saía à rua, mas onde Sampaio Bruno e Basílio Teles abancavam em livrarias e farmácias para dialogar com o passado e o presente. Onde Pascoaes enchia de névoas e de escarpas as praças e as ruas da cidade e onde Leonardo Coimbra, seu mestre e seu amigo, continuava as aulas nos cafés, envolvendo os discípulos siderados "na alegria, na dor e na graça" da sua dialética "criacionista". Mas António de Sousa ficou, porventura, mais agarrado a um outro Porto. ao burgo liberal e jacobino, viril e femeeiro, com boa comida e boa bebida, o verde a jorrar em loas dos pipos, com a euforia da festa em que se exalta o sagrado e o profano, em que se tratam por tu os santos populares. "Meu compadre S. João/ das fogueiras, das cantigas,/ficarei par ou parnão/ no jogo das raparigas?"
Coimbra - onde levou mais tempo a cursar direito do que a Guerra de Tróia ou João de Deus - tornou carne o verbo de António Nobre que o habitava desde a adolescência, incutindo-lhe um certo tipo de elegia e de linguagem, um tanto rebuscada e nefelibata, e que a experiência humana e a maturação cultural foram despojando de roupagens circunstanciais e alheias, indo ao encontro das suas próprias raízes. "A voz do homem nunca chega ao fundo/ se do fundo não subir a sua voz."
Mais do que as côdeas de Marnoco que salazar mastigara para impingir nas sebentas de Econonomia e Finanças, mais do que o Dirito Civil de Manuel de Andrade ou a erudição copiosa e fascinante de António Merea, só aproveitou António de Sousa, porventura, da Faculdade de Direito, o convívio de Mário Figueiredo, mas nas tascas da velha Alta ou nas incursões ao Terreiro da Erva. O que verdadeiramente lhe interessava nada tinha a ver com a Universidade, tal como funcionava e se impunha. Era o magistério socrático de Afonso Duarte, a pontificar nos cafés da Baixa ou na casa assombrada da Rua Dr. João Jacinto. Era o intercâmbio cultural com Vitorino Nemésio, José Régio, Gaspar Simões e Miguel Torga, com o grupo da "Presença" que lhe deu carta de navegação e alforria. E, tanto ou mais que a "Presença" o seu apego a Coimbra prendeu-se às malhas que o fado teceu, entre sustenidos e bemois, de António Menano e Edmundo Bettencourt, para quem escreveu versos que a imaginação e a saudade das gerações encheram de sortilégios e lendas. " Meu destino de estudante/ que hei-de ser por toda a vida/ foi ir passando adiante/ duma Coimbra perdida."
Foi, no fundo, essa Coimbra, não propriamente perdida mas reencontrada, que António de sousa trouxe para Lisboa, para a esquina da Sá da Costa, para a Brasileira do Chiado e para as salas dos tribunais. Cada julgamento em que intervinha se transformava numa serenata a Pilatos, em que se sentia mais o Penedo da Saudade do que o Direito Penal, mais as tranças de água do Mondego do que os normativos e as técnicas do Código do Processo, mais uns versículos da Bíblia do que os Acordãos do Supremo.
Durante anos e anos, nos "cambões" da Boa Hora, António de Sousa exerceu uma advocacia desambiciosa (como uns pratinhos ao balcão do restaurante "Palmeira"), em defesa dos pobres e dos marginais, da "escumalha" maldita dos bairros excêntricos e, quantas vezes, dos que, pelas vicissitudes políticas e sem meios de fortuna, caíram nas engrenagens da PIDE e ficaram, em má hora, enredados na ignomínia dos tristemente célebres plenários, ao arbítrio dos Silva Caldeiras, dos almeida Mouras e dos Morgado Florindos. A estes e a outros que, na "Pena Maior" do "Livro de Bordo" entram no extenso e caótico redondel dos vivos e na babélica e interminável procissão dos defuntos e em que António de Sousa increpa veementemente. "Meu cárcere no ar do teu degredo/ eu deito as mãos às grades que não vejo/ e trago só as mãos menos seguras..."(...) para, depois, implorar com misericórdia: "Meu irmão Judas/ enforcado e perdoado/ roga por mim ao Senhor!"
Duas árvores húmidas e arrepiadas, para além da janela da sala onde escrevo, trazem-me no sol esquivo deste inverno de chuvas sucintas e névoas enxutas, o perfil humano e o arquipélago poético de António de Sousa, meu amigo e amigo de meu pai, há 60 anos, em Coimbra, lado a lado nas páginas da Bysâncio, ambos tu cá, tu lá com António Nobre.
A última vez que o vi e abracei, foi exactamente há dez anos , quando me associei à piedad fraternal de Vitorino Nemésio e do pintor Guilherme Filipe, para lhe dar os bons anos. Já não saía à rua e deixara crescer as barbas que estavam maiores que as do Tomás da Fonseca. Vestia um pijama e tinha aos ombros um sobretudo roto. O desconforto era total. O frio entrava pelas vidraças partidas.
Ainda recordou Coimbra, mas era um Choupal sem músculos. Ainda falou de mulheres mas sem o ímpeto das suas cóleras dionisiacas. Ainda quis recitar uns versos, mas faltavam-lhe astros e relâmpagos e apagavam-se-lhe os sarcasmos hilariantes. Mesmo os que perpassam, com ironia e amargura no: "Desabafo", já antigo: "Fedor de literatura!/ Bibliotecas! Discotecas!/ Filmotecas, Apotecas/ selada a câmara escura/ e à solta o diabo a sete!/ Eu sou um pobre de Cristo/ mas já não posso com isto!". Uma melancolia depressiva vidrava-lhe os olhos e tornava-o distante. Quase tão distante como agora, em que meia dúzia de linhas frias de necrologia e meia dúzia de pás de terra no cemitério de Oeiras, cobriram, para sempre, o seu corpo de silêncio.(...)
In - Diário de Notícias
24.02.1981
Por- António Valdemar.
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De certeza que, hoje, o António de Sousa está a sorrir enternecido para a neta acompanhado pelo Nemésio que finge que toca violão e pela Natália que, agarrada à sua boquilha, declama um poema.
ResponderEliminarNo fim do poema, o Nemésio pousa o violão e o António de Sousa propõe um brinde aos Açores com um cálice de verdelho. Os amigos acompanham e acrescentam um brinde à melhor neta do mundo. Do mundo não, corrige o António de Sousa, do Universo.
Tchim, Tchim!
Obrigadíssima! Fiquei enternecida com as imagens! Há palavras que despertam em mim visualizações nítidas... foi o que aconteceu com estas. Obrigada do fundo do coração!
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