AUTO-DE-FÉ



Era a vaga dos sentidos


correndo as margens do Espaço


e a caber no meu abraço


sobre os teus ombros vencidos!


.


Era outra vez o Jardim


- céu macio de luar -


antes de a Cobra falar


com princípio, meio e fim.


-


Era um morrer de veludo


pelo voo dos teus dedos


ao meu corpo sem segredos;


a hóstia da tua boca


e a fome na minha, rouca...


.


Veio a alma... queimou tudo!


.


In - JANGADA , 1ª edição


Coimbra Editora - 1946

Comentários

  1. Olá Maria João!
    Será que a juventude sabe o que é poesia? Pergunto pois com os meus 64 anos vejo-a arredada dos locais onde a poesia é declamada, onde a poesia é divulgada...
    Ou será que estou mesmo velho?
    1 abraço!! António

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    Respostas
    1. Não, não está António. Eu pertenço à Associação de Poetas Portugueses e muito raramente há jovens nas nossas reuniões e palestras. Talvez por isso seja tão importante trabalhar em blog. Eles aderem mais facilmente à poesia online. Normalmente os perfis não são públicos, mas estou segura de ter jovens entre os meus leitores. Nos trinta tenho, pelo menos dois e muito seguros! Antes disso penso que sim, mas não posso jurar...
      Nós escrevemos e publicamos também para eles. Vamos continuando! É não perder a esperança e tentar conquistá-los com todo o nosso carinho. Eu estou sempre muito consciente disso enquanto trabalho.
      Abraço!

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