CANTATA DO MAU MARINHEIRO

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CANTATA DO MAU MARINHEIRO


*


 


Em Calicut, uma vez,


o grande Vasco da Gama


pôs-me a ferros no porão.


Não por pena de traição


mas por eu passar na cama


trinta dias, cada mês.


.*


Se retroava a bombarda


para acossar a moirisma


- a cambulhada casmurra -


eu dedilhava a bandurra,


recatando a minha cisma


ao anjo da minha guarda.


*


.


Quando o Santelmo chispava,


nos tops de popa a proa,


agoiros de calmaria,


eu ao bailique pedia


o caminho de Lisboa


e o corpo da minha escrava


*


.


quando a água escasseou,


a bolacha criou bicho


e o vinho já ia azedo,


eu nunca tremi de medo:


fiquei-me em santo de nicho


que a si mesmo se salvou


*


.


mas se o mar fazia espuma,


o vento cuspia pragas


e a nau parecia um trambolho,


já, do sono, abria um olho,


piscava-o de manso às vagas


- Que, enfim, a vida é só uma!


*


.


(Sei que a morte me não quer


enquanto andar embarcado,


só pecando em pensamento.


Porém sou primo do vento


e no seu corpo salgado


o mar é minha mulher...)


*


.


Não fui herói como os mais,


mas o almirante do rei


acabou por perdoar.


É que eu tinha de ficar


só nos trabalhos que sei


p`ra lhe dar estes sinais!


*


.


(A nau voltou a Belém


e eu, felizmente, estou bem!)


*


.


In: JANGADA -


1946, Coimbra Editora

Comentários

  1. Amiga M. João
    Que belo poema! Passo cá diariamente apesar de não comentar com a mesma frequência.
    Continue!
    1 abraço.

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    Respostas
    1. Meu amigo, ando envergonhada do abandono a que tenho votado este blog. Infelizmente esta semana e o início da outra vão continar a deixar-me muito pouco tempo para vir publicar e eu, no poetaporkedeusker tenho o compromisso de um poema por dia, e neste não consegui ainda seguir a mesma linha. De qualquer forma ando a criar mais de um soneto por dia e, se conseguisse postar tudo, passariam a ser quatro ou cinco por dia... talvez no final da próxima semana.
      Abraço.

      Eliminar
    2. Meu amigo, ando envergonhada do abandono a que tenho votado este blog. Infelizmente esta semana e o início da outra vão continar a deixar-me muito pouco tempo para vir publicar e eu, no poetaporkedeusker tenho o compromisso de um poema por dia, e neste não consegui ainda seguir a mesma linha. De qualquer forma ando a criar mais de um soneto por dia e, se conseguisse postar tudo, passariam a ser quatro ou cinco por dia... talvez no final da próxima semana.
      Abraço.

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