BREVE POEMA ÉPICO

Sete leões e o profeta no meio,


com óculos, de preto, guarda chuva


e uma saudade desbotada


no bolso do coração.


.


O céu triste e calado como os mortos;


as colinas à espera de pintor


e o rio como um doido a bater palmas


e a babar-se nas fragas.


.


Sete leões da terra de ninguém


todos goelas  força e sede viva.


O profeta no meio, tão profeta


que o medo lhe parecia Anjo da Guarda.


.


Magro, pois a comida de palavras


nunca foi coisa que matasse a fome...


corpo talhado a jeito de baínha


ao espírito - uma espada feita de ar.


.


Sete leões como os sete pecados,


ali, inteiros, no Jardim de Deus;


as portas milenárias em pedaços


e o Todo-Alma a estuar de fé.


.


A cada uivo - um múrmuro versículo;


para o raspar das unhas as mãos juntas


e aos saltos decisivos como raios,


um - Satan, vade retro! e o guarda-chuva!


.


Depois... tudo acabou na digestão


do profeta, do rio e até do céu!


Mas um poeta virá com outros sóis


para ver nascer flores dos cadáveres dos leões.


.


In - Sete Luas, Coimbra, 1943

Comentários

  1. Olá Maria João!
    Chamo a isto "pontaria", estava a "passear" calmamente pelos poemas de seu Avô e a amiga a brindar-me com mais este poema...
    Obrigada amiga!
    1 abraço! António

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    1. António! Mais uma vez as coincidências! Lembra-se daquela nossa conversinha de há pouco, sobre a juventude? Pois caiu-me em cima uma criança de 19 anos, com um artigo de uma violência tão requintada que nem sei por onde lhe pegar! É um artigo de ficção, sobre uns mutantes que não sei ainda se foi ela que engendrou ou se os "caçou" na televisão. Não consegui acabar de ler. Vou deixar para um dia mais calmo. Não quero perder a oportunidade de ter uma leitora co 19 anos, embora ela me pareça muito mais interessada em ser lida...
      Estou cansada demais para enfrentar hoje "mutantes telepatas homicidas".
      Não me leve a mal o desabafo...

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  2. ola amiguinha Maria João .lindo este seu poema adorei
    fico feliz em vir cá ao seu cantinho deliciar-me comestes seus poemas ,por isso lhe envio um beijinho como paga ,querida amiguinha
    seu amiguinho
    sonhosolitario

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    1. Obrigada meu amigo. Este poema data de 1943 (eu estava longe de ser nascida, por essa altura) e pertence à obra editada de meu avô, o poeta António de Sousa. No blog poetaporkedeusker é que os poemas são todos de minha autoria.
      Obrigada por visitar este espaço!

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  3. Olá Maria João!
    Eu passei... e tu?
    1 abraço! António

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  4. Olá Maria João!
    Eu estive cá... E tu?
    1 abraço! António

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    1. Até me custa dizer isto, mas estive toda a tarde num velório. Amanhã tenho de ir a um funeral. Não consigo dispensar aos blogs todo o tempo que gostaria...
      Abraço!

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  5. Olá Maria João!
    Aproveito a passagem para desejar um bom fim-de-semana.
    1 abraço! António

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