FADO DO NAVEGANTE

Meu lugre "Vento de Maio",


todo pintado de azul,


comprei-o nos mares do Sul


a um pirata malaio.


.


Lá onde o céu é maior


trafiquei pérola e copra;


a todo o vento que sopra


soube o caminho de cor.


.


Um dia, não sei porquê,


(frágeis que são as memórias...)


fiz-me a águas hiperbóreas


a vr o que lá se vê.


.


No meu regresso do Polo


trouxe uns sorrisos de gelo,


esta neve no cabelo


e duas focas ao colo...


.


Cheguei inteiro a Lisboa,


mas ninguém me conheceu!


Por isso pintei de breu


a minha vela de proa.


.


Triste, vendi o navio;


só uma corda guardei.


Os nós que dei e desdei


até que ficou no fio!


.


Mas o saber verdadeiro


e o gosto do mar amigo


vão para a morte comigo


no meu secreto roteiro.



 


In - Sete Luas, Edição de 200 exemplares da Tipografia da Atlântida, 1943



Na fotografia: António de Sousa, Eduardo Correia e Políbio Gomes dos Santos, o prematuramente falecido Poeta do "Novo Cancioneiro".


Fotografia inédita (à data da sua morte) de António de Sousa em Coimbra, na década de 40.


Esta fotografia ilustrava o artigo com que "O Jornal" anunciou a morte de António de Sousa.

Comentários

  1. ola querida amiguinha os meus parebens ,este poem atem tudo a dizer comigo ate parece que fui feito para mim desde ja os meus agredimentos .
    adorei ,cinco estrelas . .ate breve minha querida poeta , beijinho muito fofinho porque voçe mereceu ,
    seu amiguinho sonhosolitario

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  2. Olá Maria João!
    Quando por cá passei ainda não tinha sido publicado.
    Extraordinário poema! E Eu que desconhecia por completo o Avô, não me perdoo.
    Abraço grande, António Silva

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    Respostas
    1. E porque não há-de perdoar-se? António de Sousa era um lobo solitário e a partir da década de sessenta retirou-se completamente do convívio social. Como muitos críticos disseram foi ele próprio que se tornou voluntariamente apagado. A minha avó morreu em 1963 e a partir daí ele tornou-se um autêntico eremita, fechado na sua casa de Algés, sem as suas tertúlias e os seus amigos. Só eu, que nessa altura andava no Liceu de Oeiras, lhe fazia alguma companhia.
      Já foi spreitar o meu último post? Vá por favor. É por uma excelente causa e eu acredito que a situação possa ainda ser travada.
      Abraço.

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  3. Olá Maria João!
    De passagem mas... nada de novo.!
    1 abraço!!! António

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  4. Olá Amiga!
    Eu estive cá... E a Amiga?
    1 abraço! António

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