SEM TÍTULO


Era uma vez um homem como os mais,


a bordo dum navio,


singrando como os outros, sem desvio


das rotas naturais,


com máquinas pulsando como um coração


a bem do comércio e da navegação.


 


Mas vai a lua que, nua, fluía


na piscina do Céu,


uma noite em que o homem se esqueceu


de fechar a vigia,


trepou pelas vagas


e arrebatou-o para ignotas plagas!


 


Pela manhã, no "deck", os passageiros,


quando o souberam, tiveram-lhe pena


(as mulheres sobretudo:


o raptado era de cor morena...)


Pesares de passageiros, passageiros...


À hora do almoço comeram bem


e ao jantar também.


 


Dormiram, amaram


e todos chegaram aos seus destinos


e depois foram ricos, felizes, tiveram meninos


que os continuaram.


E o navio, pesada lançadeira,


continuou - para lá, para cá - na Terra inteira.


 


O homem foi um náufrago perfeito.


A princípio chorou dias inteiros,


depois, para comer, foi trepando aos coqueiros


e  resignou-se a dormir só com a Lua no seu leito.


Tanto viveu assim que ficou "lua":


andava com o corpo e a alma nua!


 


Vieram-lhe ambições. Era rei dos macacos.


Se não morre, senhores, de indigestão de lua-cheia!


E assim acabou esta odisseia.


Os outros mortos dormem em buracos...


este, numa ilha deserta e singular,


jaz de conserva em molho de luar!


 


 


In - "Ilha Deserta", 2ª edição ilustrada por Manuel Ribeiro de Pavia


       Editorial Inquérito, 1954


 

Comentários

  1. Olá Amiga!
    Palavras para quê... É um poeta Portuense e Português....
    Abraços! António

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    1. Bem Portuense e bem Português, meu amigo! E sempre fiel à sua fonética natal. Um grande abraço!

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