FALSETE

 



Ainda clamam por mim horas carnais, e eu digo


o meu sermão de lágrimas irreal.


(Da lenha que arde mal,


o aceno das chamas é sem perigo:


só promessas de fumo, vagas cousas


inúteis, sujo o ar de formas imprecisas.)


- Coração meu, que nunca te enraízas


mas, fluido, pesas como as negras lousas!


 


Falhado que não podes estar só,


e aos que podem soas a pretextos!


Para quê desdobrar-te em magros textos,


se tu nem sequer sabes fazer dó?


 


Sete, setenta vezes sete-luas


e não estás nem perdido nem rumado!


Arredado,


em ti mesmo flutuas.


 


O corpo em alma , a renegar certeza,


pôr surdina ao instinto é só virtude?


- Pode ser mera falta de saúde


e, se é viver a medo, uma torpeza!


 


- Pecados? O pior é nem os ter!


(Ai de quem foge a se cumprir inteiro!)


A tristeza que faz ver um veleiro


na água morta de um porto, a apodrecer!


 


Terra, Céu, Mar - a Vida e tu - que nojo!


Espumas.


 


Ao vento da verdade, à flor da vaga,


qualquer nada te esmaga


e só morte ressumas!


 


 


In - "Terra ao Mar", Editorial Inquérito, 1954


 


Imagem - Fotografia de um pormenor do nº 1 da segunda série da


               revista Presença.

Comentários

  1. Olá Maria João!
    Este apareceu enquanto me "passeava" pelo meio de tanta maravilha! Outra alteração! Uma vez que está em "obras" deixo-lhe uma sugestão porque não umas cores mais alegres para este blog. Peço desculpa pela ousadia. Abraços! António

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    Respostas
    1. Não é ousadia nenhuma, meu amigo! É uma sugestão!
      Mas eu explico-lhe o porquê. António de Sousa era um homem enérgico, mas soturno e muito amargo nos últimos anos da sua vida. Eu sou apenas um "aprendiz de eremita". Ele era um "eremita" a sério.
      Vivia todo por dentro de si mesmo e era tão transparente... a maioria das pessoas é que o não sabia entender. Quero que este blog tenha tudo a ver com ele. Tudo, mesmo!
      Um grande abraço!

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