NOVA CANÇÃO PERDIDA


 


Falei!


Ela, defronte de mim,


pálida e séria. Julguei


que era a minha hora, enfim,


e disse como pensei.


 


Pálida e séria. Parecia


tudo o que é belo e distante.


Eu sentia


que me ouvia


para passar adiante.


 


Continuei.


Que valia,


por medo,


guardar o que já guardei


passava mais de ano e dia?


- Segredo do meu segredo?


 


A minha voz ondeava,


à sua volta,


pairava


- folha morta, folha solta


caindo, inútil.


 


Talvez...


- Ia tão longe! Hesitava...


- Uma outra história: "Era uma vez


uma estrela que faltava..."


- Mais longe ainda. E voltava,


mas não ficava de vez!


 


Sorriso pálido.- Triste?


- Sei lá! Talvez humilhada


deste amor que só insiste


com velhas palavras mortas


de bater a tantas portas.


A boca é pra ser beijada!


 


Eu dava graças à noite


que me ajudava,


e nem via


seu sorriso que magoava.


(Seu sorriso de ironia


era o dia


que apagava


as sombras do que eu dizia).


 


Continuei.


Que valia


guardar o que já guardei


passava mais de ano e dia?


 


À sua volta


a minha voz ondeava


- folha morta, folha solta


caindo, inútil.


 


Talvez...


Coração!


Mas... porque não?


- Outra história. "Era uma vez..."


 


 


In - "Ilha Deserta", Editorial Inquérito, 1954


 

Comentários

  1. Olá Maria João!
    Que orgulho está a sentir seu Avô por ter deixado na
    terra quem tão bem o representa! Como ele está felicíssimo em saber que sua obra não morrerá! Bem haja! Abraços! António

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    1. Meu amigo António, estou apenas a cumprir o meu dever de neta e poetisa. Vou-me esforçar ainda mais em relação a este blog pois penso que ainda não estará à altura dele. Vou tentar uma postagem diária, sempre que possível.
      Um grande abraço e muito, muito obrigada!

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