AINDA SOBRE "O NÁUFRAGO PERFEITO" (por Deniz da Luz)


Escreveu um bom crítico. "António de Sousa é um dos poetas portugueses mais originais na aliança da velha graça lírica com um humor moderno, rude e fino. Se todos os nossos poetas se confessam, êle é um dos poucos que, fazendo-o, contam com o juízo final. Joga o seu jôgo a descoberto, entre a responsabilidade e o destino."


António de Sousa, pintando-nos agora  alma de "O Náufrago Perfeito", revela-nos novas possibilidades e encantos de uma das mais veementes sensibilidades existentes na poesia portuguesa actual. As imagens mais belas do nosso lirismo, do lirismo tradicional, na arte do autor de "O Náufrago Perfeito", surgem com atitudes e desfechos imprevistos, com pronunciada tendência para um pitoresco simbólico.


Lêem-se com verdadeiro encanto alguns dos seus belos poemas como o "Salmo":


 


Senhor maioral


dos pastores da serra,


para a sua terra


subo do meu vale.


 


Senhor maioral!


Que nestes ares


a minha voz se mude!


 


Dê-me a estamenha rude


e a frauta de zagal.


 


Seja a minha alma em graça


e a voz das fontes


a voz dos meus segredos


e sejam meus irmãos estes penedos


e o meu amor a luz dos horizontes.


 


Que a minha vida


como o luar derive,


guardando o gado


aqui, por estas brenhas


e eu venha apascentar


entre montanhas


certo rebanho de ilusões que tive...


 


E assim por diante, António de Sousa, nalguns poemas seus, leves como as asas de versos com que voam, atinge, por vezes, o inefável mais luminoso e mais puro.


A originalidade está já nas suas mãos. Isto, em Poesia, é quási tudo.


Vibra, também, nos seus poemas, aquela saudade da meninice e aquele sentimento de meninice perene - em contraste com o mundo e a vida - freqüentes e comovidos nos nossos melhores poetas.


Nem tudo porém em "O Náufrago Perfeito" são visões cândidas. Há no livro muitas lágrimas e destroços de naufrágio. Abundam certos lances sensuais e certas expressões que podem ferir ouvidos menos acotumaos aos gritos e despeitos da vida.


António de Sousa tem o seu lugar numa estante selecta a poesia contemprânea.


 


Denis da Luz


 


NOTA - O recorte de jornal não permite identificar o periódico.


 


 

Comentários

  1. Olá amiga João. Mais uma vez, tu não esqueceste o teu grande motor, que te ajuda a continuar a tua senda poética. Eu adicionei-o, não só pelo poema, mas também, adicionei-o pela discrição mesmo que ligeira, de quem foi António de Sousa. Um grande abraço de amigo do peito. Eduardo.

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    1. Obrigada Eduardo. A biografia dele foi escrita pela Natália Correia. Estou a guardá-la mais para o fim, quando a obra dele estiver quase toda publicada online.
      Um abraço.

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    2. Olá amiga João. Só te peço um favor: quando souberes da publicação diz-me fás favor que eu quero adquiri-la. Até porque eu adoro a Natália acho que ela escreve muito bem.Um abraço.

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    3. Ah, mas o livro foi editado em finais da década de 80, penso eu. Está tão bem esondido, por causa dos gatos, que já lhe perdi o rasto... chama-se "Atlantismo e Insularidade na poesia de António de Sousa". Quando o descobrir digo-te qual é a Editora. Eu ando um bocado (muito) desmemoriada...
      Abraço grande!

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  2. M. João
    Que bela homenagem está a prestar ao seu Avô! As críticas boas ou más dão a grandeza que o artista merece e o António de Sousa gostará, esteja onde estiver, de ler e reler o que sobre ele foi escrito. Parabéns amiga e continue. Beijos! António

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    1. Sabe, meu amigo, eu devo-lhe isso e muito mais! Eu fui sempre o seu "Chininho" (era assim que ele me chamava. Dizia que eu parecia um porquinho da Índia ...) e foi ele que fez com que eu tivesse acessoo a todos os livros da sua biblioteca e quem partilhou comigo os seus poemas enquanto nasciam. Era um pouco "amargo" para os outros, mas para mim foi sempre de uma doçura incomparável!
      Abraço!

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