ACORDES


 


                                    Ao Miguel Torga e à Andrée Crabbé Rocha


 


Quando a estrela começou a cantar


já ele tinha cabelos brancos,


o lábio duro e as unhadas do tempo


na cera fria da face.


 


Uma canção angélica, de paz,


verde como essa luz do amor primeiro.


Embebia-se dela a noite mansa


e tudo esperava uma revelação.


 


Ele ouvia-a pelo ouvido direito


(ao esquerdo um mar de trevas cachoava),


guardando os olhos inquietos


nas pálpebras cerradas.


 


Quando a estrela começou a cantar


já era ao pobre o coração de ferro.


Mas os dedos subtis da melodia


abriram nele uma flor de luar.


 


 


In- "Livro de Bordo", 2º edição, 1957

Comentários

  1. M. João!
    Este blog está sempre em grande! Parabéns! Abraços. António

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    1. Obrigada pela visita, António. Este blog não tem a assiduidade que eu gostaria de lhe poder dar, mas a poesia de António de Sousa é para ser "digerida" muito lentamente. Toda ela é pura metáfora.
      Abraço grande.

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