REFLUXO


Esta vaga magia de ser triste


é o azeite que ponho na candeia,


o fermento do pão da minha ceia,


meu sorriso que dói mas não desiste.


 


Tantos me julgam fáci na alegria


e eu, de mim, sou a noite de um segredo!


O meu amor é a tremer de medo


desse Amor que, decerto, me sabia.


 


Amo a graça longínqua das estrelas,


o fluido fantasmático da bruma


e o longo adeus marítimo das velas.


 


Onda que ao largo se perdeu da praia,


vou-me disperso em lágrimas, espuma,


e talvez neste enrêdo vos distraia...


 


 


In - "Linha de Terra", Editorial Inquérito, 1951


 


Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia


 


NOTA - Este é o meu preferido, de todos os sonetos de           


             António de Sousa e também o que melhor o de-


              fine, na minha opinião.


 


 


 

Comentários

  1. Também gostei deste soneto, dos que já li este parece-me o que se parece mais com a sua escrita, a maneira como descreve o dia a dia com os problemas e com algumas alegrias também
    Boa Noite agora vou deitar-me que já são horas

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    1. Hoje ando um bocadinho desencontrada! "Apanho-a" sempre fora de horas... já deve estar deitada, mas digo-lhe que adoro este soneto! Pode ser que nem todos o vejam assim, mas eu cresci junto dele e vejo nele António de Sousa, por inteiro. Não há aqui truques ou fingimentos. É ele, tal qual o conheci.
      Um grande abraço e obrigada pela visita.

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  2. sem dúvida poetisa, é um belissimo soneto.
    com um grande ciao e muita inspiração, coisa que não falta, eu bem vejo. Baci.

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    1. E nós, Peter, andamos encontradíssimos! Publicámos comentários em simultâneo e tudo!
      Obrigada pela visita. Este sempre foi o meu poema favorito, em toda a obra do meu avô.
      Baci.

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  3. Voltei para reler este poema que vale a pena revisitar de vez em quando como quem vai a um templo para refletir e meditar...belo, sensa dúbio !!!! Baci poetisa, grande poetisa...

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    1. Peter, este poema é do meu avô. Ele é que é o grande poeta, eu sou só uma principiantezinha ao pé dele! Claro que criatividade não me falta, mas falta-me ainda passar o crivo dos 100 anos... e ele já o passou. Este é o blog que dedico à obra dele, embora já lá tenha ido parar um poema meu, por lapso. Se calhar deveria tê-lo retirado, mas eu sou daquelas essoas que gostam de aprender com os erros e recordar que erraram... feitios...
      Baci.

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  4. Namastê (curvo-me perante ti), onde quer que estejas! António

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  5. Olá Amiga João. Este é o meu preferido, dizes tu. Olha amiga eu não tenho e nem nunca terei preferidos, porque estou sempre a conhecer mais um poema novo, mas a verdade é que de facto é um poema muito belo e com uma mensagem muito forte, uma discrição muito bem delineada e de uma clareza muito grande adorei e adicionei. Parabéns. Um abraço de boa noite. P. S. estou muito atrasado nos comentários, mas eu parece que de há uns dias a esta parte em vez de melhorar, estou a piorar, cada vez demoro mais tempo para fazer a mesma coisa. Abraço. Eduardo.

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    1. Não desanimes Eduardo. São fases. Eu também as tenho... volta e meia ando uns dias a "andar para trás", parece que não consigo fazer nada de jeito... mas depois passa. Vem uma fase mais produtiva, em que nos sentimos menos cansados e voltamos a ser meninos.
      Abraço grande.

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