FADÁRIO


Noite na cama. Sonho. Bons sapatos velhos


para os calos da alma,


e lá vou de viagem


ao fundo da minha vida!


 


Vou ficando. - O melhor gôsto


da preguiça predestinada


que não curam médicos nem rezas.


 


Deixo pelo caminho o fato puído


das sete-luas com poeiras estelares;


que é uma vergonha andar assim, agora,


entre automóveis, aviões e engenharias!


 


(Lave-se quem cheira a passado,


antes que o varram para o lixo os demiurgos


- os do Homem Nôvo, científico e total.)


 


Trago na bagagem cumprimentos


- Ora essa; pois não!?... para tôda a gente,


respeito, consideração e frasquinhos bonitos


com cheirinhos para as namoradas.


 


Venho muito mais senhor-doutor,


para ir ao escritório, estar à espera


de quem compre certezas baratas.


 


- Muito bons dias! - Isto é o que eu trago.


(pròpriamente a viagem,


não sei como é, tenho-lhe mêdo!


Mas volto lá amanhã, se Deus quiser


e me não roubarem o passaporte...)


 


 


In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944


 


Imagem retirada da internet

Comentários

  1. Olá Amiga João. Desculpa A ausência, mas o meu computador desta é que tem que ir a formatar, está num caos. Olha amiga, tive que ler mais que uma vez, para entrar na toada do poema, mas consegui. O teu Pai devia ser mesmo um grande poeta. Trata-se da tal prosa poética mas com sentido muito forte. Eu adicionei, Um Abraço e tudo de bom para ti. Eduardo.

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    1. Eu também acho que este é um magnífico poema! Obrigada por teres adicionado e as melhoras do teu computador! Espero que o meu nunca preciso de ser formatado! Não sei se é possível ter uma aspiração destas, mas eu vou tendo!
      Obrigada, também, pelo Pai Natal!
      Abraço.

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