POETA, 1951


Nem luar, nem estrelas. O céu denso,


noite densa e total.


(Quantas cores furtou para as não ver?)


O sal das suas lágrimas num lenço.


Sua vida banal


sabe a perder.


 


É de si que se data e que é revel.


(de tudo quanto espera tão dorido,


trai a sua verdade e nem dá conta...)


Atro, o fogo do amor, queimou-lhe a pele


e a alma nua de que vai vestido,


e só à terra o coração o aponta.


 


Um sino ao longe, à bruma doutras vidas,


a sua voz sonâmbula murmura,


onde era para ser clamor ou canto,


sete rimas perdidas.


(Dessas areias mortas de secura


nem demónio, nem santo!)


 


- A enganar o destino, faz-se duro?


(O moinho da saudade está sem mós.


Assim não vale a pena ser moleiro...)


- Gritam-lhe: Contra um muro!


gemem-lhe: Venha a nós!


e ele... enche o cinzeiro?


 


Que vos importa esse quieto desprezo,


se o anjo dos seus dias o provoca


só em sonhos, de leve?


- Deixai-o lá queimar seu fogo-preso


e ser brando ou cruel na sua toca!


Ele é de passar, breve.


 


 


In "Linha de Terra", Lisboa, 1951


 


 

Comentários

  1. M. João
    O Natal não pede licença, chega e entra…
    Eu entrei e fiquei a sorver tamanha arte...
    Feliz Natal! Abraços! António

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    1. Eu gosto muito, muito, desta poesia de "verso desarticulado" dele!
      Feliz Natal, António!

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