CANÇÃO DA FELICIDADE
Felicidade, felicidade,
Ai quem ma dera na minha mão!...
António Nobre
Tão simples!... Fôssemos aves
e a vida era só voar
por céus de tintas suaves
que ninguém sabe pintar.
Fôssemos bichos do monte
em vez de sermos pastores:
tínhamos vinho nas fontes
e o prato-cheio das flores.
Fôssemos nós os ribeiros
tagarelas das quebradas,
não os tristes marinheiros
do mar das águas salgadas.
Fôssemos nós a candeia
de alumiar aos serões,
sem o mêdo da alcateia
e das rondas dos ladrões.
Fôssemos nós, meus amigos!
os gordos cachos das vinhas,
em vez de pobres mendigos
que pedem pelas alminhas.
Fôssemos como o pinheiro
tão assisado e plebeu
que as pinhas são mealheiro
onde tem sempe de seu!
Fôssemos antes o fogo
dalguma braza esquecida,
em vez de andarmos no jôgo
de luz e trevas da vida.
Fôssemos nós como as cabras,
as afilhadas da terra,
em vez destas feras bravas
com sêde e fome de guerra.
Fôssemos linho e frescura
para as arcas do bragal,
em vez desta carne impura
sempre em pecado mortal.
Fôssemos nós a vidraça
que é tão fiel para a luz,
em vez de sermos da raça
que pregou Cristo na cruz.
Fôssemos nós pedras mudas,
rudes, sem eira nem beira,
em vez de sermos o Judas
que se enforcou na figueira...
... Felicidade! ... Afinal,
fôssemos nós naturais
e limpos de todo o mal,
não era preciso mais!...
In "Caminhos" 1933
Imagem retirada da internet, via Google

Olá amiga poeta. Filho de peixe sabe nadar, tem tanto de verdadeiro como de velhinho. Só te digo que adicionei e amei. Um grande abraço Eduardo.
ResponderEliminarObrigada, amigo!
EliminarAbraço!
Olá amiga. Maria João. Palavras para quê. É um artista Português. de seu nome António Nobre. A. A. A. Adorei, Amei e Adicionei. Parabéns, amiga, és da arte e por isso sabes bem escolher. Um grande abraço Eduardo.
ResponderEliminarNão, amigo, não é António Nobre, é António de Sousa, embora neste poema haja muitas semelhanças com a poesia de António Nobre.
EliminarAbraço grande.
Olá amiga. Eu logo após comentar vi que me tinha enganado. Mas já não fui rectificar, Desculpa-me. Se quiseres apaga-o e apaga também este . que eu volto a comentar. Mas acima de tudo desculpa-me. Um abraço. Eduardo.
EliminarE tu pensas que eu também não me engano muitas vezes? Não tens de pedir desculpa, amigo. Deixa lá estar os comentários que isto acontece aos melhores!
EliminarSó não acontece a quem nem se dá ao trabalho de comentar...
Um grande abraço.