A MORTE DO ENCANTADO

A MORTE DO ENCANTADO
*



Calou-se - bebeu-a a noite -


aquela fonte encantada


que me ensinou a cantar.


Calou-se: bebeu-a a noite


que nunca tem madrugada


nem rouxinóis ao luar!

*


 


Agora fiquei só eu


e a cinza do meu cigarro


e os livros da minha estante.


agora fiquei só eu:


- Triste boneco de barro


que tivesse alma um instante!

*


 


Sòzinho choro de bruços,


rojado às pedras da estrada,


saudades nem sei de quê...


sòzinho choro de bruços...


Sou uma estátua quebrada


dum deus em que ninguém crê.

*


 


Fui um menino prodígio,


incêndio, língua de chama,


pastor de estrêlas e sóis!


- Agora sou um vestígio,


uma pègada na lama


para os que vêm depois...

*


 


Calou-se tudo; nem ouço


o relógio dos meus versos:


as artérias a pulsar...


a noite... o fundo dum poço...


e, como troncos submersos,


meus ossos a tiritar!

*



 


Calou-se - bebeu-a a noite -


aquela fonte encantada


que me ensinou a cantar.


Calou-se - bebeu-a a noite,


a que não tem madrugada


nem rouxinóis ao luar!

***


António de Sousa  


In "Caminhos", 1933


 


Nota - Todas as transcrições mantêm, neste blog, a grafia original

Comentários

  1. Calou-se e bebeu a Noite. Mas eu não me calo, eu tenho que gritar e dizer que adicionei, porque gostei, porque achei bonito, porque achei bom, porque achei belo, porque merece ser divulgado. Parabéns Para quem deu o primeiro Paço. Abraço Eduardo.

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    Respostas
    1. Obrigada, Eduardo! Eu também o acho lindo!
      Abraço grande!

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    2. Olá amiga. João. Não só é lindo como tem uma mensagem muito eloquente. É sem dúvida um soneto maravilhoso. Boa noite e bom sono. Abraço Eduardo.

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    3. Boa noite também para ti, amigo. Abraço grande!

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