A MORTE DO ENCANTADO


Calou-se - bebeu-a a noite -


aquela fonte encantada


que me ensinou a cantar.


Calou-se: bebeu-a a noite


que nunca tem madrugada


nem rouxinóis ao luar!


 


Agora fiquei só eu


e a cinza do meu cigarro


e os livros da minha estante.


agora fiquei só eu:


- Triste boneco de barro


que tivesse alma um instante!


 


Sòzinho choro de bruços,


rojado às pedras da estrada,


saudades nem sei de quê...


sòzinho choro de bruços...


Sou uma estátua quebrada


dum deus em que ninguém crê.


 


Fui um menino prodígio,


incêndio, língua de chama,


pastor de estrêlas e sóis!


- Agora sou um vestígio,


uma pègada na lama


para os que vêm depois...


 


Calou-se tudo; nem ouço


o relógio dos meus versos:


as artérias a pulsar...


a noite... o fundo dum poço...


e, como troncos submersos,


meus ossos a tiritar!


 


Calou-se - bebeu-a a noite -


aquela fonte encantada


que me ensinou a cantar.


Calou-se - bebeu-a a noite,


a que não tem madrugada


nem rouxinóis ao luar!


 


 


In "Caminhos", 1933


 


Nota - Todas as transcrições mantêm, neste blog, a grafia original

Comentários

  1. Calou-se e bebeu a Noite. Mas eu não me calo, eu tenho que gritar e dizer que adicionei, porque gostei, porque achei bonito, porque achei bom, porque achei belo, porque merece ser divulgado. Parabéns Para quem deu o primeiro Paço. Abraço Eduardo.

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    Respostas
    1. Obrigada, Eduardo! Eu também o acho lindo!
      Abraço grande!

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    2. Olá amiga. João. Não só é lindo como tem uma mensagem muito eloquente. É sem dúvida um soneto maravilhoso. Boa noite e bom sono. Abraço Eduardo.

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    3. Boa noite também para ti, amigo. Abraço grande!

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