LENDA DO PATO BRAVO


LENDA DO PATO BRAVO


*


Voa no céu


- tão alto! -


um pato bravo,


e a onda do seu grito


rola no sangue vivo do poente:


 


"Suam-me versos estas noites velhas


que me descem dos olhos,


lá do fundo,


onde é, talvez, o coração que vê.


 


Digo ao que vem à frente dessas horas:


- Aqui, viver ou morrer,


mas devagar!


E grito o meu orgulho a sete luas mortas...


 


Depois, gran-duque e senhor


e rei de um reino de pedir às portas,


choro


e esmolo o pão da vida


aos que de vida são fartos.


 


E peço amor a algum beijo


gasto, cansado, caído,


que ia a destino e me bateu na boca.


 


- Há por aí farrapo pra vender?


 


Sou o dos olhos de mel...


Sou o menino dos luares doridos


que esteve nove meses de joelhos


a rezar o seu medo de nascer".


 


Voa no céu,


tão alto,


um pato bravo,


agora, no silêncio


do deserto e das almas que se fecham.


 


O vento servo dos deuses,


certeiro o gume da faca,


mete-lhe o vôo entre fatias de ar:


um "hors d`doeuvre" de apetite


para os papões demiurgos


dos caminhos para Ser.


 


- Pronto! passou!


Prossiga esse banquete!


 


O guisado de sóis vem para a mesa.


Continua o roer da Eternidade.


*


 


António de Sousa


In "Sete Luas", 2ª Edição, Editorial Inquérito


Lisboa - Maio de 1954


 

Comentários

  1. Olá amiga João. Um poema muito emotivo, e com muita classe, ou não viesse ele de onde vem. Parabéns. Continua. Um abraço Eduardo.

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    1. Obrigada meu amigo. Caramba! Nem queiras saber a quantidade de comentários e emails que eu tinha hoje de manhãzinha... ontem o sapito nem me deixou abrir nada e hoje ainda não fiz outra coisa senão responder, responder, responder...
      Isto é da Primavera...
      Abraço grande!

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    2. Mas tu tinhas dito que ias fazer como eu ou seja mandriona, Eu chego a responder a comentários com 3 dias de atraso, paciência, eu não sou capaz de ter as coisas em dia, vou respondendo conforme posso. Não te rales, que ficas cheia de cabelos brancos logo cheia de saudade. Abraço Eduardo.

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    3. Já estou cheia de cabelos brancos, amigo... e ando a tentar manter a janelinha da net fechada durante a maior parte do tempo... é o que posso ir fazendo. Nõ é preguiçar porque não me dá jeitinho nenhum e obriga-me a fazer tudo a correr, sem poder "saborear" devidamente os vossos blogs, emails e comentários.
      Abraço grande.

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    4. Olá amiga João. Não te amofines, que te faz mal e então aí é que eles acabam mesmo por ficar todos branco, depois como és poeta vais cantando: Cabelo branco é saudade da mocidade perdida, ás vezes não é da idade, é dos desgostos da vida. Um abraço muito apertado e carinhoso.

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    5. Olha que quase adivinhaste. Eu até gosto de cantar, sobretudo quando estou sozinha, mas como a memória vai falhando, já me esqueci da maioria das letras que sabia de cor.
      Adivinha o que uma amiga conseguiu... conseguiu por-me o canal 1 a funcionar e eu, embora vos esteja a responder, estou a ouvir o Malato. Saiu uma senhora engraçadíssima que fazia muito "bluff".
      Abraço grande.

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    6. Ai! Amiga João. Que boa noticia, que tu me deste, parabéns, e parabéns também para a tua amiga. Eu também vi ontem o programa do Malato. Foi muito divertido, enquanto lá esteve a Senhora do buraco Fundo. Não sei se viste no dia anterior, que ela esteve até ao fim, é muito divertida. Um abraço Eduardo.

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    7. Vi sim, amigo, mas acabou por não ganhar, coitada.
      Tu tinhas razão. É um programa muito interessante e aquele rapaz, o Malato, parece que gosta das mesmas coisas que eu... gosta de Paula Rego, Saramago, Alentejo, ditados populares... gosto dele.
      abraço grande.

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    8. Olá amiga João. Ele Gosta do Alentejo, Pois ele é de Portalegre, e ele é uma pessoa muito comunicativa e muito divertido. E também gosta da Paula Rego , Já eu ouvi ele dizer mesmo que admira muito a Paula. Um Grande Abraço e B. F. de S. Eduardo.

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    9. Pois. Eu até o ouvi dizer que um dos seus grandes sonhos seria comprar, um dia, uma tela dela. E é, realmente, muito, muito simpático.
      Abraço grande.

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