COMUNICADO

 


 


 


 


 


Depois de amanhã vou para a Lua,


A cavalo num peixe voador.


(Ando com insónias há cem anos


E tenho medo dos aviões.)


 


Depois de amanhã vou para a Lua.


Amanhã há impedimentos:


Preciso de escrever umas cartas


E ainda não acabei o tabaco de cachimbo.


 


Depois de amanhã vou para a Lua.


 


Recebi um bilhete do Anjo Azul:


“Compadre, tenho estrelas para o jantar…”


(Sempre gostei de estrelas


E, agora que estou a ficar velho,


A carne da Terra faz-me mal.)


 


Depois de amanhã vou para a Lua.


Rua do Raio Verde, 7, rés-do-chão.


(O quarto de hóspedes tem grades


E entra-se por um alçapão.)


 


Depois de amanhã vou para a Lua.


Não tenciono cá voltar.


Deixo à família um bom espólio:


Meu lugre-escuna – ou é falua? –


Que anda de cor por terra e mar,


O meu roteiro e o seu escólio:


Quinhentos versos a secar.


 


 


In “Linha de Terra”, Lisboa, 1951


 


Imagem retirada da internet


 

Comentários

  1. não precisa pedir por favor, esta poesia, pela originalidade e pela ideia, vale tudo.
    por isso é que filho de peixe ...

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  2. Respostas
    1. Obrigada, Natália! É um grande poeta, não é? Um tanto ou quanto bicho-do-mato, como eu, mas um grande poeta!
      Abraço grande, grande!

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