SONATA II


 


          2


 


Mesmo quando a manhã canta em hosanas,


uma dúbia ternura me desdobra


num pálio de poentes sobre a vida


dos que lutam e sangram sua fé.


Tudo o que posso dar sabe a tristeza,


a um adeus que é renúncia e desespero.


Se me rio é de mim, à minha sombra


sumida como um hálito lunar.


As lágrimas são caras na velhice


e eu já nasci velho.


Eu nasci velho como um deus cumprido


que quisesse ser homem


sem saber


que nem um deus é homem quando quer!


(Deus cumprido e frustrado - oh cósmica pilhéria! -


é de mim que me rio à minha sombra,


é por mim que canto a minha voz,


é a mim que me fujo mnos terreiros


ou nos becos da Vida!)


 


Um fantasma de sonho, riso e pó,


mas cortado de dores como um parto de astros,


eis-me tal qual me vejo


neste espelho que fala como gente:


um mistério e uma história-de-café!


 


 


in "Linha de Terra", Lisboa, 1951


 

Comentários

  1. Respostas
    1. Ainda não, Peter. É um poema em três partes... vou tentar publicar ainda hoje a terceira parte.
      Bacini!

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