HISTÓRIA ANTIGA


 


O mundo tinha outra vez


começado.


O céu estava pedrês,


zunia um vento danado,


vulcões espumavam fogo


e o mar fazia regougo


como um leão esfaimado.


 


Rangiam,


gemiam


as portas do paraíso,


com estrelas em "fingidos".


(Céu e Terra divididos


até ao Dia do Juízo!)


 


Eva perdera os sentidos


e a serpente do mal,


toda enroscada num galho


da macieira fatal,


assobiava,


imitava


a fúria do temporal.


 


Adão


não fora ganhar o pão,


não suava no trabalho:


estava sentado no chão,


tão alheado de tudo


que parecia tonto e cego,


surdo e mudo como um prego!


(dir-se-ia que nem sabia,


pela milésima vez,


que era outra vez o primeiro


dos homens


e o derradeiro)


 


A Terra tremia toda,


os raios, de uma assentada,


rachavam montes em três!


E ele... nada!


 


.........................................


 


- Bem antes da Idade Média,


fui testemunha de vista


desta singular tragédia.


Mas, desde então para cá,


andei por tanta conquista,


por terras de Bem e Mal,


que não me recordo já


se já lhe soube o final...


 


 


 


António de Sousa 


 


In "Sete Luas", Lisboa, 1954 - 2ª Edição

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